ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 565 - 24/11/2009
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Uma pauta para mudar o Rio
Postado por Luiz Weis em 5/10/2009 às 5:57:49 PM
 
 

Seria fazer muito pouco de nossa imprensa imaginar que a ideia já não tenha ocorrido ao menos a um jornalista e não tenha corrido ao menos por uma redação, mesmo no clima de carnaval da vitória desses últimos dias.

A ideia é sobre a parte que cabe à mídia para tornar possível o que interessa acima de tudo na realização das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro: a oportunidade sem precedentes até onde a memória alcança de mudar a cidade para mudar a qualidade de vida da população carioca.

Uma coisa é preparar a cidade para os Jogos em sentido estrito. Outra coisa, porque não quer dizer necessariamente o mesmo, apesar dos muitos pontos em comum, é fazer da cidade, aproveitando o embalo e os bilhões que vão rolar no processo, um lugar decente para todos quantos precisem disso, a começar dos pobres.

É razoável supor que o modo como a mídia participar da repaginação do Rio para atender aos compromissos assumidos pelo Brasil em Copenhague pode fazer diferença no campo social.

Pode fazer também diferença para a história do jornalismo brasileiro.

Claro que a incumbência primeira é do Globo – o único jornalão que sobreviveu no Rio. Ah, a falta que fazem o Jornal do Brasil de outros tempos, o Correio da Manhã… Mas isso não quer dizer que a Folha e o Estado de S.Paulo estejam confinados a serem figurantes nessa história.

Na TV e no rádio, o mesmo vale para as outras redes, além da Globo.

Mas, afinal, do que se está falando?

Está se falando de a imprensa se apetrechar para uma operação de longo prazo, absolutamente incomum portanto, que deveria ir além da melhor cobertura concebível do que o poder público decidir fazer e fizer para tornar o Rio uma cidade olímpica.

A operação começaria por revisitar sistematicamente as grandes mazelas cariocas. Imagine-se uma força-tarefa de jornalistas criada para planejar, coordenar e publicar a partir de 2010 a mais ambiciosa sequência de reportagens sobre o “estado da arte” dos conhecidos desastres cariocas – da crise dos serviços de infra-estrutura urbana à degradação ambiental e, naturalmente, à criminalidade.

Imagine-se o jornal, ao mesmo tempo, extraíndo o sumo do sumo dos melhores especialistas em cada um desses problemaços e recorrendo, por meio de tudo que a internet tem a oferecer, a todos quantos acreditem que tenham algo a dizer a respeito, não só para dissecar as questões, mas para apontar em cada caso as possíveis portas de saída – capazes de ser abertas no preparo do Rio para 2016 com as chaves douradas dos R$ 28,8 bilhões que o poder público promete gastar nessa empreitada.

Imagine-se ainda um trabalho também sistemático de confronto entre os projetos dos governos e os que a imprensa, pelo que tiver apurado, considerar que aqueles não contemplam (ou contemplam pela rama), sempre de uma mesma perspectiva: a dos ganhos sociais que devem proporcionar.

Por que um jornal, calçado nas melhores análises disponíveis e com a participação dos seus leitores, não deveria pressionar por mudanças nas decisões oficiais, se essas forem consideradas erradas ou insuficientes?

Imagine-se por fim (ou não necessariamente por fim) o jornalismo tomar para si, por intermédio de quem entende dessas coisas, a auditoria dos investimentos decididos – com base nas informações cuja divulgação a própria imprensa tiver conseguido assegurar, batendo nessa tecla desde a primeira hora: agora.

Gritar “pega, ladrão”, a mídia brasileira até que faz, valendo-se dos flagras do Ministério Público ou dos Tribunais de Contas. Mas, nesse cenário, o alarme, quando for o caso de acioná-lo, viria depois do alerta sobre as oportunidades que os governos estariam deixando de aproveitar (por uma pá de razões que também deveriam ser expostas) para transformar as condições de vida da maioria.

É um trabalho para durar, metaforicamente, até a chegada da tocha olímpica. Por aí já se vê a dificuldade: jornalistas não são de fazer planos – e cumpri-los – para um período desse tamanho. No Brasil, o futuro para o qual a imprensa se prepara é o das eleições do ano que vem. Depois dos resultados, ela vai planejar a cobertura dos primeiros meses do novo governo. Tais são os horizontes naturais da mídia.

Dá para estendê-los, ou assim o blogueiro quer acreditar, correndo o risco de passar por ingênuo, pensando numa analogia. Na área pública, existem políticas de governo e políticas de Estado – estas, feitas para sobreviver ao entra-e-sai dos governantes de turno. Seria absurdo um órgão de imprensa criar uma “política de Estado” – definições, metas, ações continuadas no universo da informação – para lidar com o formidável potencial de um evento como os Jogos do Rio?

Fica a provocação.

Comentários (11)
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Jose Arlindo Salgado  DeSouza, Funcionario Publico (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 8/10/2009 às 10:15:40 AM

Um dos assuntos mais polêmicos que eé a "desfavelização" precisaria de uma postura nova da Mídia comoum todo. Essa postura deveria ser absolutamente desvinculada dos interesses comerciais dos veículos em relação aos grandes incorporadores imobiliários. digo isso porque tenho visto que a campanha de retirada das favelas dos morros do Rio não pressupõe a recuperação dessas áreas com florestas etc. O que se vê é sempre o interesse da especulação imobiliária movendo essas campanhas. O que se precisa mesmo é o Poder Público ocupar esses locais - não com polícia - mas com serviços públicos (educação, saúde, lazer), urbanização e saneamento. O resto decorre.
Rogério  Barreto Brasiliense, corretor de imóveis (Santos/SP)
Enviado em 7/10/2009 às 1:54:16 PM

Li uma entrevista muito interessante do Consul Geral da África do Sul no Brasil publicada no blog do jornalista futebilístico Cosme Rímoli sobre a organização da Copa de 2010 e me impressionou as frases: "somos maiores que os nossos problemas" e "nós iremos fazer a nossa copa, a copa do mundo da África". Organizar os dois grandes eventos esportivos em curtíssimo espaço de tempo é um desafio que mostrará o que podemos e o que queremos ser como país. De minha parte, se em 2016 ainda estiver vivo, vou tirar férias no mês de agosto, ir para o Rio de Janeiro, garantir um bom lugar no Engenhão e realizar um dos sonhos de minha vida: assistir ao vivo uma final olímpica dos 100 metros rasos.
Otto  Lima, Engenheiro Mecânico (Niterói/RJ)
Enviado em 7/10/2009 às 11:37:40 AM

Os países e as cidades que saltaram de qualidade depois de sediarem Jogos Olímpicos têm algo em comum: a primeira mudança que implementaram foi a de ATITUDE. De fato, faz-se necessário reverter o processo de degradação do Rio, que se arrasta há quase 50 anos, iniciado com a transferência da capital da República para Brasília e consumado pela sequência de gestões e legislaturas corruptas, incompetentes e omissas que se sucedeu à fusão dos antigos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro. Porém, antes disso, faz-se necessário vencer a guerra psicológica promovida por mentes fétidas como os efluentes que desaguam aos metros cúbicos no Rio Tietê e na Baía de Guanabara, que tomaram de assalto a grande mídia tupiniquim.
Perseus  van Hades, aposentado (São Paulo/SP)
Enviado em 7/10/2009 às 10:49:12 AM

Prezado Luiz, as necessidades efetivamente existem. Sua idéia é muito pertinente e certamente ajudaria a resolver muitos dos problemas estruturais e conjunturais do querido mas depauperado Rio de Janeiro. Entretanto, considerando que há um lado político nos escuros subterrâneos de nossa cultura, na prática vão somente dar uma leve mão de verniz para embelezar a fachada, alguma esmola para silenciar os necessitados, a roubalheira vai correr soltíssima com bilhões sumindo novamente (lembra-se do Pan?), os jornalistas serão ameaçados de morte e os jornais serão todos censurados por algum juiz amigo de plantão, como ocorre atualmente com O Estado de São Paulo (que ousou colocar alguma luz num dos caciques dos escuros subterrâneos). Enfim, que Deus nos ajude e esse pessoal morra antes de 2016. Perseus
Adma  Viegas, Professora (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 6/10/2009 às 11:18:23 PM

E desde quando uma mídia bairrista e provinciana como a paulista (em especial oa Folha de São Paulo) vai querer botar azeitona na empada do Rio? Quanto a imagem da cidade, uma coisa eu acho engraçada: parece que só o Rio tem favelas, só o Rio tem violência e tráfico de drogas. O resto do Brasil é um paraíso, não tem nada disso, imagine... o internauta de Aracaju que postou abaixo disse que esperava encontrar as ruas tomadas de viciados em crack. Não sabia (!) que o Rio tinha parques, teatros e museus (!!!) Surpreendeu-se em ver casas bonitas e ar limpo. Isso mostra o tamanho grau de desserviço que a mídia brasileira, em especial as organizações Globo tem prestado à cidade. Parece uma campanha orquestrada para destruir a imagem e a auto-estima do carioca.
Thiago  MR, autônomo (Brasília/DF)
Enviado em 6/10/2009 às 9:41:55 PM

Os investimentos passarão de R$50bi se o Estado resolver promover a veraz mudança em Rio. A cidade merece, carece e CLAMA por uma repaginação histórica.
joão  cesar, diretor (sau paulo/SP)
Enviado em 6/10/2009 às 7:05:54 PM

Afinal os jornalões que você citou se consideram o quarto poder, partidos com governantes não eleitos e acima de qualquer suspeita. Lobos que escondem o seu lado empresárial e tem por finalidade apenas os lucros pois são mais importantes que a informação isenta. Alias na imprensa brasileira não existe essa palavra isenção. Dai sua sugestão vai cair no vazio pelo puro desinteresse dos redatores.
Roberto  Ribeiro, Arqueólogo (Aracaju/SE)
Enviado em 6/10/2009 às 4:23:01 PM

Verdade. Até este ano da graça de 2009 nunca tinha posto os pés no Rio de Janeiro, nem nunca tinha tido vontade. Tudo o que eu sabia era sobre as mazelas. Sabia que existia favela, que existia crime organizado, tráfico, corrupção, jogo clandestino. Imaginava eu na minha ingenuidade que encontraria o centro do Rio coalhado de mortos-vivos fumando craque ao meio-dia. Fui ao Rio como um operário desce ao esgoto, preparado para a lama pútrida. Foi com grande admiração que eu descobri que é possível andar pela cidade, que ela é cheia de museus e parques, que o ar é razoavelmente limpo, que as casas são razoavelmente bonitas, principalmente no Flamengo onde eu me hospedei. Não acho que faltem denúncias, a cidade não é a utopia que pintam seus propagandistas, nem o inferno descrito por seus detratores. É preciso não cair no ufanismo, por exemplo, as rampas deslizantes do Galeão não estavam funcionando e esse pequeno detalhe me fez andar um bocado. Também a Linha Vermelha do aeorporto ao centro é deprimente. Quando eu vi o Instituto Oswaldo Cruz cercado de favelas, tive vontade de mandar o táxi retornar e pegar o primeiro avião de volta. Acho que o carioca já se acostumou com certas coisas e acha razoável aquela visão tétrica, mas não é. Uma mulher bonita não é bonita se estiver cheirando mal.
José Paulo  Badaró, desempregado (São Paulo/SP)
Enviado em 6/10/2009 às 1:45:48 PM

"A operação começaria por revisitar sistematicamente as grandes mazelas cariocas..." - - - Se a imprensa paulista não faz isso em relação ao governo do Estado de SP, ao qual é subserviente ou descaradamente aliada, com que moral faria visitas sistemáticas no quintal dos outros???
Álvaro  Castro, estudante de jornalismo (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 6/10/2009 às 11:00:43 AM

Acho que a provocação é extremamente válida e acredito que a mídia pode assumir um papel mais firme para viabilizar que os Jogos Olímpicos realmente mudem a cara do Rio. Na verdade, grande parte dessas mudanças deveriam ter sido feitas com os Jogos Panamericanos de 2007, como foi largamente prometido. contudo, o legado se mostrou muito mais um largado na prática. O que me incomoda é que precisemos de um evento tão específico para sucitar este tipo de incomodo em quem faz jornalismo e sobretudo em quem pensa jornalismo. Essa preocupação deveria ser diária, como muito se coloca dentro da Academia, mas se torna praticamente impossível pelo próprio processo de industrialização da produção noticiosa. Hoje se esvreve muito mais o que podemos e o que nos é permitido do que o que deveríamos. Bom, fica a provocação Álvaro Castro Estudante de jornalismo da Universidade Fumec / Belo Horizonte-MG
Dante  Caleffi, Publicitário (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 6/10/2009 às 10:56:23 AM

Ingênuo acreditar que a mídia:"quatro famílias",estão preocupadas em promover as "Olimpíadas".A pauta é uma só com variações táticas:prosseguir fustigando Lula e sua provável sucessão.Seja lá quem for. Quanto as mazelas cariocas,estas já são divulgadas com tanta intensidade, frequência e extensão,que seu objetivo está até superado: adolescente de qualquer quadrante do planeta, sabe que o Rio é a capital da violência,das grandes favelas, do carnaval e da opulência calipígia. Foi um trabalho elaborado com dedicação, esmero e pertinácia. Uma jóia da estratégia militar, que a mídia,em particular as "Organizações Globo" se empenharam por manter e aprimorar essa herança pretoriana.
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Luiz Weis
Jornalista, pós-graduado em Ciências Sociais 
pela USP, onde lecionou Sociologia da Comunicação. Escreve no Observatório da Imprensa e no jornal "O Estado de S.Paulo". Entre outras atividades, foi redator-chefe das revistas "Superinteressante" e "IstoÉ", editor-assistente da "Veja", editor político e apresentador do programa "Perspectiva" da TV Cultura, editor nacional da "Visão" e editor de assuntos especiais da "Realidade". É autor, com Maria Hermínia Tavares de Almeida, de "Carro-zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar, in "História da Vida Privada no Brasil", Lilia Moritz Schwarcz (org.), 1998, e do perfil político de Vladimir Herzog (sem título), in "Vlado — Retrato da morte de um homem e de uma época, Paulo Markun (org.), 1985. Recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo Científico, em 1990.


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